Servidor

10/04/2018

Um ator no presídio

O agente penitenciário Marcelo Leôncio tem uma vida agitada. Não apenas, mas também pela profissão, na qual entrou por conta da mãe. É uma pessoa inquieta que nunca abandonou o interesse nato pelo futebol, acrescentou o gosto pela motocicleta e foi brindado com a possibilidade de fazer ponta em filmes, documentários e em novela.

Último servidor público a estar registrado como funcionário do Presídio do Ahú, em Curitiba, é uma caixa de memórias vividas intensamente ali e em outras instituições prisionais pelas quais passou. Estava de licença na data do fechamento, em 2006. No retorno, enquanto se resolvia seu destino, acabou recepcionista e contador de histórias para as dezenas de visitantes. “Uma espécie de guia turístico”, brinca.

O conhecimento adquirido desde 1991, quando iniciou o trabalho como agente penitenciário, abriu as portas para uma das experiências mais enriquecedoras: manter contato com atores e fazer figurações em algumas produções. “Foi incrível”, relata. Marcelo ostenta o nome em créditos de filmes e mantém contato e amizade com integrantes das equipes.

A primeira produção após o fechamento do Presídio do Ahú foi Estômago, de Marcos Jorge, filmado em 2007. No filme, vislumbra-se parte do colete usado por Marcelo, numa cena em que abre e fecha uma cela. Logo depois, fez o papel de agente carcerário em Sétimo, produção não comercial do Centro Europeu, e participou de outras filmagens com ambientação no Ahú.

FILME E NOVELA - O auge da carreira cinematográfica de Marcelo Leôncio foi em 2010, após orientar os envolvidos na produção de 400 contra 1, uma história do crime organizado, de Caco Souza. Foi tão convincente na demonstração de contenção de preso que o diretor intimou-o: iria interpretar o carcereiro Rojão.

Além das locações no Ahú, o elenco trabalhou na Ilha Grande, no Rio de Janeiro. “Curti aquela coisa, em hotel, boa comida, dando autógrafo”, diz o agente penitenciário. “Quando o diretor grita: 'ação', é tudo muito intenso, emocionante”. Mas ele reforça logo: “Apesar disso tudo, o meio artístico não me atraiu.”

O que não impediu que, no ano seguinte, estivesse às voltas com outra produção. Desta vez, na gravação de capítulos da novela O Astro, da Rede Globo, em que orientou na montagem do cenário. Marcelo apareceu nas telas, mas a convivência com atores, particularmente Francisco Cuoco - “um mito da TV” - é o que mais marcou.

FUTEBOL - Se o cinema e a televisão foram acidentais, o futebol foi escolha pessoal. “É uma paixão de criança”, diz. Começou na lateral direita do Combate Barreirinha, clube amador curitibano, e hoje atua como técnico do União Ahú. Com carteirinha e tudo. Aliás, foi colega de Luiz Felipe Scolari no curso oferecido pelo Sindicato dos Treinadores do Rio Grande do Sul.

A experiência como técnico começou em 2004 nos juniores do Combate Barreirinha. No mesmo ano passou para o titular e levou o time à final da Taça Paraná. De lá para cá passou por vários clubes amadores de Curitiba, mantendo uma rotina que inclui treinos e reuniões em algumas noites e os jogos nos sábados. “O futebol amador é muito emocionante”, afirma.

Como parte da vivência no futebol, dedicou-se, entre 2006 e 2008, a um projeto social com 86 crianças e jovens carentes que, em torno de uma bola, aprendiam lições para a vida. Alguns conseguiram a formação universitária, outros ficaram pelo caminho. “Prefiro lembrar os que salvei e que se tornaram doutores, do que aqueles que perdi”, diz.

Mais recentemente, o agente penitenciário foi cativado pela motocicleta e começou a fazer parte do clube Moto Amigo. “Há uma solidariedade grande entre os motoqueiros e isso fez com que me envolvesse”, acentua. Entre as muitas aventuras, um passeio, em 2016, pelo Uruguai.

CARREIRA - Em 1990, Marcelo Leôncio foi avisado pela mãe que ela o tinha inscrito no concurso para agente penitenciário. “Não tinha interesse, não estudei, mas fui fazer a prova e passei em terceiro lugar”, lembra. Somente aí procurou saber do que se tratava. “A profissão não me atraiu, mas a remuneração de 16 salários mínimos, sim”, confessa.

Algumas experiências, como a condição de refém em rebelião na Penitenciária Central do Estado (PCE), em Piraquara, em 2001, são, literalmente, coisas do passado. Mas continuam vagueando à busca, talvez, de um papel para se transformarem em letras. Ainda que o agente insista em dizer que é mais contador oral de histórias que escritor. Atualmente, está no Setor de Triagem da Casa de Custódia de Piraquara, onde algumas histórias de vida começam e outras terminam.

O futuro? Ainda não tem definido, mas está com muitas rotas traçadas. É formado em Gestão Pública, quase terminou o curso de Educação Física, também começou Propaganda e Publicidade, além de Administração. O Direito esteve próximo de ser iniciado. Sua única decisão é fazer algo de que realmente goste. “Isso vale mais que dinheiro”, acentua.

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