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05/09/2017

Liberdade nas Artes

A Rua Neocídio Franco de Miranda, número 485, em Borda do Campo, município de Quatro Barras, no pé do Morro Anhangava, não é apenas a residência do agente penitenciário Angelo Barros e sua mulher, Elaine. Uma pedra de granito em frente ao portão anuncia o Centro Cultural Baitaca. Uma iniciativa nascida da criatividade, obstinação e dedicação do agente, que também é licenciado em Educação Artística, com habilitação em Artes Visuais, pela Faculdade de Artes do Paraná (FAP).

É na garagem que ele desenvolve o Projeto Arte e Cultura, criado em 2014. Ali, Barros esparrama peças e produtos de cantaria (arte de esculpir em blocos de pedra) que compõem o Pequeno Museu do Granito Job de Barros. Também fazem parte do Centro Cultural exemplares de jornais e revistas que edita, folhetos com informações históricas sobre o município que o viu nascer, e o acervo de quadros, desenhos, figuras em papel machê e maquetes, pelas quais o carinho é especial. São fruto de seu trabalho com presos do Complexo Médico Penal, em Piraquara.

O projeto pedagógico no complexo existe há mais de 15 anos, tendo desde o início a pedagoga Ana Maria Schneider na condução. Recentemente, no entanto, a sala de artes e outras do local foram tomadas por presos da Operação Lava Jato. Desiludido com a falta de espaço para desenvolver as atividades, Barros pediu transferência para a Penitenciária Estadual de Piraquara II. Mas, enquanto o projeto de artes funcionou, garantiu bons frutos. “Foi melhor do que esperava”, disse o agente.

EXPANSÃO - Segundo ele, o foco inicial eram as pessoas que tinham cometido ilícitos penais, mas que, por serem portadores de doenças mentais, estavam em tratamento. Para elas, nada melhor que colocar a mente e as mãos para trabalhar. Encarando a ação como missão, o agente levava de sua casa o material necessário para desenvolvimento das atividades, essa a razão de ele manter sob sua guarda os produtos das oficinas de arte.

Para auxiliar os internos no trabalho, Barros fazia os desenhos com as proporções e escalas dos monumentos bem delineadas. “A partir desses desenhos, eles faziam as maquetes”, afirmou. As cerca de 15 miniaturas que mantém em casa reproduzem igrejas, escolas e até o primeiro posto de combustível da cidade.

Os bons resultados conseguidos levaram a direção da instituição a autorizar que o projeto fosse estendido a pessoas que estavam em regime de reclusão. Novamente os frutos foram excelentes. Alguns dos ex-detentos mantêm ainda hoje as atividades que aprenderam quando estavam internados. “Tem um que mora em Santa Catarina, faz desenhos de mandala e vende para a Europa”, diz. A arte continua a unir o agente penitenciário e os alunos que conquistou nas oficinas do Complexo Médico Penal e frequentam seu centro cultural.

HERÓI - O talento de Barros ultrapassa em muito os portões da penitenciária. De sua criatividade surgiu, há alguns anos, o Jegman. Raimundo Severino é de família nordestina, oriundo de família pobre, com infância difícil. Ao comer um pedacinho de rapadura, no entanto, ele se transforma no super-herói brasileiro, que combate o crime e auxilia os necessitados. “Numa sátira aos super-heróis conhecidos, ele carrega a força do jegue e o jeitinho brasileiro”, diz o criador. Tem até uma revista, que já está na 4.ª edição. “Quero expandir para Curitiba.”

Barros também publicou, em revista, algumas histórias envolvendo figuras e mitos de Quatro Barras. “São histórias que ouço desde criança”, afirma. Prepara-se, agora, para nova edição com outros causos. “Nosso povo é muito divertido e representa uma cultura local muito rica”, elogia o agente penitenciário. Para preservá-la cada vez mais, ele publicou um álbum de figurinhas que, no entanto, ficou apenas no primeiro volume.

JORNAL – Já o jornal El Corsário é editado trimestralmente por Barros e ostenta na capa: “A publicação em circulação mais antiga de Quatro Barras”. Em 2018 completará o 20.º aniversário, sempre antenado nas novidades. A visita da equipe da Secretaria da Administração e da Previdência ao museu instalado em sua casa, para contar esta História de Vida, já foi manchete do jornal antes mesmo da publicação no Portal do Servidor.

Ao El Corsário junta-se o jornal Página 15, também editado pelo agente penitenciário. Nele desenvolve tirinhas com o personagem Gelinho, que faz sátira com a fama de o curitibano ser frio e fechado. Culturalmente inquieto, Barros já editou um livreto com a história da banda Sinal Vermelho que, entre o final dos anos 80 e durante toda a década de 90, levou o nome da Borda do Campo aos salões de baile da redondeza. Barros, é claro, fazia parte da banda como baterista.
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