Servidor

11/04/2017

Amor ao próximo

A servidora do Departamento de Estradas de Rodagem (DER), em Foz do Iguaçu, Odete Saturnino Romeiro, não se importa de ser acordada de madrugada para auxiliar algum vizinho que necessita. Também não teme entrar em qualquer hora do dia ou da noite em áreas mais violentas de Foz do Iguaçu, caso seja chamada. Assim como não lhe incomoda dedicar horas de seu dia cuidando de crianças para que as mães possam trabalhar.

“Faço isso porque amo”, diz a servidora. Dona Odete, como é chamada, tornou-se conhecida em regiões pobres da cidade, particularmente nas redondezas da Casa de Hóspedes do DER, da qual cuida desde que entrou no serviço público, há 42 anos. Também conhece todo mundo. “Nas favelas, às vezes passa gente com armas nas costas, olham para mim e dizem que a dona Odete é uma mulher de coragem, é nossa mãezona”, afirma.

Ela lembra que, em certa ocasião, houve um roubo na Casa de Hóspedes. Na manhã seguinte, procurou o “chefão” da comunidade, que prometeu resolver a questão até as 8 horas da noite. Segundo a servidora, mais ou menos nesse horário, alguém ligou à polícia dizendo onde podiam ser encontrados os objetos roubados. Eles foram entregues a dona Odete.

Outra vez, foi acordada às 3 horas da madrugada. Uma moradora da Comunidade Monsenhor Guilherme, uma área carente da cidade, estava dando à luz, deitada em uma rede. “Levei toalhas e tesoura de casa para contar o umbigo”, diz. Nasceram gêmeos. Por gostar do que faz, ela se mantém disposta. “É muito bom morar aqui”, acentua.

CRIANÇAS – A conquista da confiança da comunidade é fruto de dedicação diária. Se sabe que alguém precisa de algo, imediatamente faz uma visita à família e estimula doações do que é necessário. Em caso de morte de conhecido, ao menos uma flor coloca no caixão, não raras vezes conseguido por ela mesma. E às vezes faz mais que isso.

Certa vez, uma conhecida da Favela do Bolo, próximo à Ponte da Amizade, entrou em contato falando que o filho tinha sido morto. “Tinham enterrado na lama, pobrezinho, fui lá com a polícia, tinha muita chuva, peguei o carro na funerária, ajudei a abrir a gaveta do IML, colocamos no caixão que ganhei e fomos direto para o cemitério”, diz.

O coração de dona Odete mostra-se grande, e a maior paixão é pelas crianças. É comum as mães das comunidades vizinhas deixarem os filhos para que tome conta enquanto trabalham. “A senhora sempre será um anjo na vida das crianças”, ela já ouviu. Sabendo da carência das famílias, nada cobra. “Somente peço a Deus que me dê saúde”, afirma.

Aliás, foi logo depois de sofrer com doenças que começou a se dedicar com mais intensidade ao trabalho de solidariedade. Retornando de uma das internações em Cascavel, da qual se recuperou apesar de ter sido desenganada pelo médico, recebeu convite para reunião da Pastoral da Criança. Foi, gostou, engajou-se e não sentiu mais as dores que a levavam ao médico.

Segundo ela, após a morte da fundadora Zilda Arns e de algumas lideranças da pastoral em Foz do Iguaçu, o trabalho no setor em que atuava esmoreceu um pouco. Então, passou a realizá-lo de forma quase individual.

APOSENTADORIA – Dona Odete saiu de Cascavel no início dos anos 70, quando o marido, que era operador de máquinas do DER, ganhou a casa onde ainda mora em Foz do Iguaçu. “Era a última, no fim do pátio, no meio do mato, e ninguém queria”, conta. No entanto, com 30 dias de muito trabalho, a casa passou a ser cobiçada por pessoas que antes a tinham rejeitado. “Aumentei, fiz assoalho, banheiro”, comemora. “Era a última, transformou-se em primeira.”

Ela não pensa em se aposentar, sobretudo após a morte do marido, em dezembro de 2015. Prefere continuar tomando conta da Casa de Hóspedes do DER e dedicando-se ao trabalho social voluntário. “Trabalhando a gente se distraia e eu gosto do que faço, porque faço tudo com amor”, afirma. “Não sei falar não para ninguém, porque nunca estou cansada.”

Confira outras histórias clicando aqui
Recomendar esta notícia via e-mail:

Campos com (*) são obrigatórios.