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22/03/2017

Na horta de um japonês apelidado Antonio

Na vice-governadoria do Estado do Paraná, o nome Yoshiaki Yamaguchi soa meio estranho. Mas, se chamar pelo “seu Antonio”, logo aparece um japonês com rosto de muitos amigos. Ele não é apenas o garçom do local, também fornece gratuitamente parte das saladas consumidas em eventuais almoços e traz, de casa, a couve que enriquece o suco do governador. Seu Antonio é um homem que ama a terra.

O “batismo” brasileiro foi sacramentado tão logo entrou no serviço público, em 13 de abril de 1982. Por considerar o nome muito difícil de pronunciar, o governador Ney Braga, que um mês depois se desincompatibilizaria para disputar o Senado, cravou-lhe o apelido. O novo nome pegou e se encarnou em Yoshiaki Yamaguchi, ou melhor, seu Antonio, nascido em 1950, em Saga-ken, no sul do Japão.

TERRA - Desde a infância, sua vida, assim como a dos pais e irmãos, foi dedicada a tirar o alimento da terra. Seguindo a saga de milhares de concidadãos, a busca por condições melhores trouxe a família ao Brasil, em 1962. Primeiro, uma passagem por Taquari (RS) e, logo depois, pela região de Itaiópolis (SC), onde foram introduzidos no cultivo do fumo em uma colônia de imigrantes.

Ao mudarem-se para o Paraná, o destino inicial foi Piraquara, trabalhando com hortaliças. Menos de dois anos depois, a família mudava-se novamente, desta vez para São José dos Pinhais, entrando como meeiros em uma propriedade próxima ao aeroporto. Não demorou muito e eles fixavam-se definitivamente em Almirante Tamandaré, na região próxima ao Parque Tanguá.

As habilidades como garçom foram adquiridas nos anos em que se dedicou ao restaurante Madalosso, no bairro de Santa Felicidade, em Curitiba. De lá, foi indicado para o trabalho no cerimonial da Casa Civil, sendo admitido no serviço público.

HORTAS - Nos fundos do Palácio Iguaçu, seu Antonio foi logo arregaçando as mangas e colocando na terra mudas e sementes que se transformaram em verduras e legumes. “Deu bonito”, afirma. A cozinha abastecia-se ali. A horta continua lá, mas seu Antonio já não tem tantos olhos para ela.

Agora, a dedicação é para a que mantém na propriedade da família. À tarde, quando abandona a indumentária de garçom, veste-se de camponês e marca seu encontro com a terra. Normalmente, ao chegar, a mãe, com 92 anos, já está debruçada sobre as hortaliças, tirando os matinhos. “Ela tem uma vista muito boa, gosta de mexer na horta e está sempre ajudando”, elogia.

O mesmo entusiasmo da mãe foi passado para o filho. “Eu gosto de ver e trabalhar na terra, ela é vida, dá alimento para muita gente”, diz seu Antonio. “A terra é desestressante.” Vizinhos são os principais clientes da horta da família Yamaguchi. “São produtos saudáveis, sem agrotóxico, e isso é uma vantagem”, propagandeia.

JAPÃO – Mesmo amando seu pedaço de chão brasileiro, seu Antonio decidiu, em 1991, ter uma experiência na terra que o viu nascer, levando um dos quatro filhos. Por um ano e quatro meses, foi empregado em uma fábrica de automóveis, onde exercia a profissão de pintor. “Não me acostumei com o estilo de vida, pois trabalhava uma semana durante o dia e, na outra, durante a noite”, afirma. Valeu o que conseguiu juntar em recursos. “Ganhei lá o que ganharia aqui em dez anos”, diz.

No Brasil, no entanto, ele conseguiu alguns privilégios que poucos japoneses conseguem morando na terra natal. Tem fotos com integrantes da família imperial que visitaram o Paraná durante o período em que está atuando no Governo do Estado. A última, em 2015, foi tirada pela vice-governadora Cida Borghetti, e seu Antonio aparece ao lado do príncipe Akishino e sua mulher, a princesa Kiko.

Mesmo tendo tempo para a aposentadoria, o garçom afirma que ficará no serviço pelo menos até o final de 2018. Depois disso, pode despir-se definitivamente da vestimenta protocolar. E já sabe o que vai fazer: trabalhar na terra. “Não pode ficar parado, é preciso ter atividade, fazer exercícios, porque se ficar o dia todo no sofá, vai ficar doente”, ensina.

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